Quarta-feira, Abril 19, 2006

 

Quem disse que manteiga não custa caro?

Crônica

Por não conseguir resistir àquele creme saboroso, ela acabou passando pela pior experiência de sua vida

“Angélica Aparecida de Souza Teodoro está presa desde novembro do ano passado por roubar um pote de manteiga de R$ 3,10 e teve pedido de liberdade negado pela Justiça paulista.” Revista jurídica eletrônica "Última Instância", 23/03/2006.


Ela era uma pobre doméstica. Daquelas que saem do Nordeste e vão para a cidade grande em busca de uma vida melhor. O destino dela? São Paulo. Aparentava ter seus trinta e poucos anos, mas as marcas em seu rosto denunciavam muito mais. Já havia passado por muitas dificuldades. Aliás, dificuldade era a única palavra que ela sabia soletrar. Companheira constante na vida dela.

Certo dia, passando em frente a um supermercado, resolveu entrar para dar uma olhadinha nas coisas gostosas. Gostosuras que sabia que nunca iria saborear. Foi quando se deparou com um pote de manteiga. Lembrou-se dos anos que fazia que ela nunca mais havia experimentado uma. A última vez foi na casa de uma antiga patroa, velhinha a pobrezinha (que Deus a tenha), já tinha até morrido. Foi essa velhinha que lhe deu um pedaço de pão com manteiga e uma xícara de café com leite bem quentinho. Isso depois de um dia inteiro de faxina. A doméstica ainda podia sentir o gosto da manteiga. Deu-lhe até água na boca.

Em um impulso, olhou para todos os lados e esticou os braços para alcançar o tão desejado pote de manteiga. O mesmo desejo que as patricinhas têm de devorar uma caixa inteira de chocolate suíço, mas com uma grande diferença, o preço. A vontade era tanta, que a doméstica nem pensou nas conseqüências. Foi logo guardando o pote dentro da bolsa e partindo a passos rápidos para a porta de saída. Foi se imaginando comendo aquele pote inteiro de manteiga. Mas deveria economizar, pois seria a “iguaria” que acompanharia as refeições dela ainda por muitos meses.

Um pequeno detalhe passou despercebido. Havia câmeras espalhadas por todos os lados do supermercado. Ela não se deu conta de que poderia ter sido filmada com a prova do crime, ou seja, o pote da tão sonhada manteiga. Seguiu pelos corredores toda sorridente. Aquela manteiga seria um banquete, devido às condições em que se encontrava (desempregada, dois filhos para criar e abandonada pelo marido). Que situação!

Levou um tremendo susto ao chegar à porta de saída. Do lado de fora havia um cordão de isolamento, um esquadrão antibomba, uma tropa de elite da polícia, armada até os dentes. Havia homens atrás das viaturas como nos filmes americanos. Parecia até que na frente deles se encontrava uma terrorista ou coisa pior. A doméstica estremeceu quando ouviu um comandante histérico, que mesmo com um megafone, gritava com voz de pai bravo: “Coloque a bolsa no chão, abra lentamente, retire o pote de manteiga e o coloque no chão, depois ponha as mãos na cabeça e deite-se afastada da bolsa”. Com muita cautela, alguns policiais se aproximaram e a algemaram, levando-a presa.

Enquanto isso, a duas quadras dali, um homem assaltava um banco, portando uma metralhadora. Um funcionário tentou reagir e “virou peneira”. Antes de morrer, conseguiu acionar o alarme. O pânico era geral dentro do banco. O assaltante, com a maior facilidade, fugiu levando todo o dinheiro que pode carregar. A polícia onde estava? Estava atendendo a uma ocorrência num supermercado próximo e não chegou a tempo de pegar o assaltante.

Ah! Qual foi o fim da história da doméstica? A pobre coitada foi presa, considerada perigosa para a sociedade e teve sua liberdade negada pela Justiça paulista. Está até hoje encarcerada num presídio de segurança máxima, esperando a triste sentença. Enquanto o assaltante do banco, até hoje não foi sequer encontrado.

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