Quinta-feira, Abril 06, 2006

 

Que Brasil é esse?

CRÔNICA


Esse fim de semana resolvi sair, dar um passeio. Peguei meu carro e fui até a praça mais movimentada da cidade. Acho que todo brasileiro espera ansioso o fim de semana chegar, seria uma forma de fugir da mesmice do dia-a-dia. Sentei-me na grama e comecei a observar as pessoas que passavam. Estava um dia ensolarado, o que me deixou inquieta, não podia mais ficar sentada ali, tinha que fazer algo. É tão mecânico correr para lá e para cá a semana inteira, que não consigo mais ficar parada. Foi quando uma moça, aparentando uns vinte e poucos anos passou por mim e sorriu. Achei estranha a atitude dela __sorrir para alguém que nem ao menos conhece__ retribuí o sorriso e continuei observando-a se afastar.

Algo me chamou a atenção naquela garota. Por onde passava, todos a olhavam e comentavam alguma coisa. Minha curiosidade aumentava a cada passo que ela dava. Levantei-me e, discretamente, comecei a segui-la. Havia algo de diferente em seu olhar, algo que me fez tomar a atitude de vigiá-la. Não costumo fazer isso, mas alguma coisa me dizia que devia fazê-lo.

Apressei o passo e a alcancei, tentei disfarçar o máximo possível para que não percebesse que a estava seguindo. Enquanto a garota passava, fazia-se um murmúrio de vozes, como um coro. Meus ouvidos estavam ficando malucos ou eu realmente estava escutando o que as vozes diziam? Eram palavras feias, sem sentindo, sem contexto, aliás, não conseguia encontrar um sentido para o que estava sendo dito. As pessoas a apedrejavam com palavras e quando perguntava o porquê das grosserias, elas simplesmente se calavam e saíam de perto de mim, deixando-me na dúvida.

Quando me aproximei dela, percebi que levava uma bolsa, onde se agarrava como se tivesse medo que a fosse tomada. Notei que ela sorria e cumprimentava a todos conforme ia caminhando. Como uma pessoa tão adorável podia ser tão maltratada? E como ela conseguia manter um sorriso nos lábios com tanta dor que aquelas palavras causavam?

A moça avançou alguns passos e parou em frente à escadaria de uma igreja, começou a subir os degraus, quando uma voz em alto e bom som gritou: __ prostituta! Ela se abaixou, ajoelhou nos degraus, abriu a bolsa e arrancou um pequeno embrulho. O padre, ouvindo o alvoroço que se fazia, correu até a porta em direção à garota. Ela o olhou nos olhos, lágrimas escorriam em sua face. Eram as primeiras lágrimas que via naquele olhar, uma mistura de lágrima e sorriso. Sem nenhuma palavra, a moça estendeu a mão e entregou-lhe o embrulho. Ao ser indagada sobre o que era aquilo e o porquê de tanta fúria contra ela, a garota simplesmente sorriu e disse:

__ Eis aqui tudo que recebi na vida. Sei que não obtive todo esse dinheiro através de uma profissão convencional, mas foi a única maneira que encontrei de sobreviver. Quando meu mundo estava desmoronando, Deus me mostrou o caminho. E hoje sei que Ele me ama, mesmo que os outros me critiquem e se afastem de mim. Entrego tudo que tenho para que façam bom uso dele.

Ela se levantou, virou para mim e deu um último sorriso. Fez-se o silêncio. Diante daquela cena, daqueles olhos enormes e curiosos de todos que a presenciavam, percebi como podem existir pessoas tão egoístas e tão bondosas em um mesmo país, que mesmo na dificuldade conseguem levantar e caminhar. Enquanto pessoas como essa moça se preocupam em economizar tudo que obtiveram na vida para oferecer a quem mais precisa, outras perdem o tempo sentadas na praça, vendo o dia passar, fazendo “futrica” da vida alheia. Discutem política, economia, como “expert” no assunto. Mas quando a real situação econômica bate na porta delas, a primeira coisa que vem à cabeça desses brasileiros é se o dinheiro vai ser suficiente para ir à praça no próximo fim de semana. Eis o Brasil que o povo merece.

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